Alucinações

Tio Christian

O Christian tinha me encontrado à noite, numa calçada e embaixo da luz de um poste. Eu estava bêbado e com muita vontade de urinar, mas precisava tirar a calça de couro e estava difícil. Ele me levou pra casa dele, e minha tia falou para eu dormir de roupa mesmo, mas na calçada, porque estava muito sujo. Disse ainda que se eu quisesse, podia urinar nas calças, que no outro dia ela compraria mais roupas para mim. Lembro que eu sentia muito calor.

Tio Rivalmir

Meu tio havia comprado um helicóptero preto de guerra, com dois rotores principais, e além de estar aprendendo sozinho (como é de seu jeito), ainda ensinava meu primo Alex. Ele nos levou de van até o ginásio da UFMT, onde estava hangarada aquela baita aeronave. Lá eu vi várias pessoas, adultos e crianças, todos drogados pelo chão. Havia um telhado de zinco, tipo um galpão, e o helicóptero tinha que se deslocar pra fora, como um carro, e depois voar. Os viciados pediam dinheiro por qualquer coisa que fizessem, como querer limpar meu sapato ou ajudar a empurrar o helicóptero para fora, mas o tio os repelia, gritando para se afastarem.

Calçada

Eu estava perto da porta do hospital, encostado na parede, numa maca, incomodado com a dor que tinha na nuca (na verdade era uma escara, mas eu não sabia). Eu via o dia amanhecendo, as pessoas passando na calçada apressadas, por causa da garoa, indo para o trabalho. Lembro de ter visto uma mulher toda de preto com um guarda-chuva e um homem andando com um jornal aberto sobre a cabeça. Na verdade eu estava na UTI do Sírio-Libanês, em coma, mas a cena que vi se parece muito com as descritas por pessoas que tiveram experiências extracorpóreas.

Casa do Guilherme

O Guilherme (meu instrutor de paraquedismo e irmão da Ivana, médica plantonista no dia do acidente) morava na mesma casa do Condomínio Dunas do Areão, só que ela tinha, nas paredes laterais, grandes retângulos de vidro que deixavam transparecer o interior das casas geminadas vizinhas, à esquerda e à direita. Havia umas 10 pessoas, e fomos todos para os fundos da casa, onde de dentro de uma churrasqueira tiraram minha bota esquerda, mostrando-me o solado solto e os arranhões laterais. Tinha um cara junto, que apesar de sua fisionomia ser desconhecida para mim, eu sabia que era alguém muito famoso. Eu tenho até hoje a minha bota esquerda, e assustei quando vi que o rasgo nela é exatamente no mesmo lugar que via no meu coma.

O caminhão

Era noite e havia uma carreta tipo baú, branca, estacionada sem o “cavalinho” no pátio de um posto de luzes amarelas. Dentro desta carreta o espaço parecia maior do que vista do lado de fora, e nela funcionava uma sala de cirurgia. Os médicos (dois) saíram por uma porta lateral, desceram por uns degrauzinhos, conversaram com meu pai, que estava preocupado no pátio, e subiram novamente para me operar. Dentro da carreta tinha uma divisória estabelecendo o espaço estéril para cirurgias, e eu ficava me questionando porquê aquela carreta tinha sido transformada em sala de cirurgia, ainda mais funcionando num posto, à noite.

Hospital-escola naval

De repente eu estava num navio, em uma enfermagem infantil. As crianças usavam uniforme azul escuro, da Marinha, e eu não via um adulto por perto sequer, e sabia que estava totalmente submisso aos cuidados delas. Veio uma menina negra gordinha e falou que meu pai queria falar urgentemente comigo no rádio, porque ele estava afogando em um compartimento abaixo do meu, que estava inundando. Quando eu peguei no aparelho e falei: “Alô, alô!!”, só escutei um “Meu filho…” muito triste, e em seguida o barulho de bolhas estourando. A água tinha chegado ao teto, meu pai tinha morrido afogado e eu, além de não poder ter feito nada, não consegui atender o rádio a tempo de pelo menos nos despedirmos. Tive a exata sensação de sofrer a notícia da morte de meu pai, foi muito difícil.

O Barco

Em outra alucinação, eu estava novamente em um barco, com uma turma de moças e rapazes, todos surfistas. Era uma embarcação do tipo chalana, e tinha um salão grande no convés onde tocava muita música, mas ninguém dançava. Atracamos em uma praia, porque começava a anoitecer, e todos desceram com suas pranchas e as fincaram na areia. Fizemos uma fogueira e eles ficavam me ouvindo contar histórias do Mato Grosso, de fazendas e pescarias. Conforme o tempo passava e ia ficando tarde da noite, cada hora um deles pegava sua prancha, entrava no barco, guardava a prancha sobre sua própria cama, em umas prateleiras acima da cabeça, e ia dormir. Eu aproveitei para ir embora sem me despedir.

“Bagaço” (Pres. do Motoclube)

Eu estava dirigindo uma Kombi, com meu pai, e fomos parados no Posto da Polícia Rodoviária Federal antes de chegar em Cuiabá. Eu tinha perdido a carteira de habilitação porque havia ficado com umas sequelas (eu não podia dirigir porque não falava mais). Uma policial pediu meus documentos e, como eu não os tinha, ela começou a lavrar a multa. Eu via o Bagaço mais à frente, porém não conseguia chamá-lo (eu não sabia mais falar), até que ele me viu e veio ao meu carro.

Eu tentava explicar através de gestos e ele não entendia, ficando até bravo, e disse: “- Para com isso, Jackson! Onde já viu você se explicar pra mim que não consegue dirigir!”. Então ele retirou a multa das mãos da policial e me liberou.

Copa com o Zé Roberto

Estávamos eu, meu amigo José Roberto, sua namorada Cristiane, alguns primos dele e umas crianças numa casa grande, arejada, com piscina. Nós assistíamos à Copa na varanda, cujo teto era de tijolo à vista, e ficávamos comentando os lances.

Então eu não achei mais graça e fui ensinar violão àquelas crianças, e até pensei em fazer um “bico extra” colocando um anúncio no jornal que eu tinha um método exclusivo, que era através do qual minha irmã tocou “Palpite” de Patrícia Marx, na terceira aula. Eu até pensava: “Bem, eu ponho meu violão naquela capa com alça, ponho nas costas como uma mochila e vou dar aula em domicílio, de moto”.

Banho frio.

Eu estava numa edícula de uma casa, em um bairro de classe média alta, mas havia terrenos baldios no fim das ruas. Eu estava numa dessas últimas casas, e era de madrugada. Fazia frio e as duas enfermeiras que estavam comigo diziam que esperavam amanhecer porque eu iria tomar banho frio.

O céu estava ainda escurinho, azul, quando chegou um homem moreno e magro, em um carro de luxo preto, dizendo que já podiam me dar o banho.

Copa no caminhão

O motoclube havia parado numa espécie de posto, onde fui colocado numa maca atrás da roda de um caminhão, e eu ficava preocupado do caminhão vir para trás e passar por cima de mim. Então me tiraram dali e me colocaram numa esquina no segundo andar de uma construção, sem amurada, e agora eu estava com medo de cair.

Osvaldo Gardenal

Atrás da empresa do Gardenal havia uns quartinhos, parecendo um motel barato, que ele explorava. Na rua de trás da empresa já ficavam as prostitutas, também do cafetão Gardenal. Havia um pátio interno, e os quartos ficavam no segundo andar.

Manso

Era uma festa num navio, no meio da represa de Manso. Havia vários ambientes, e de hora em hora todos iam de um para outro, mas não sem antes passar nas suas respectivas cabines e trocar de roupa (o que era obrigatório). Comida e bebida à vontade, cassino, sala de comando, passeei por todo o navio. Eu sempre era o último a conseguir me trocar, e vestia uma roupa apertada, que me dava muito calor. Quando o dia amanheceu, lembro-me de ficar perambulando no convés entre os garçons, que estavam arrumando a bagunça, empilhando as mesas. Tinha polícia, mas eles ficavam em terra, observando tudo através de um binóculo, por trás de um arbusto.

(Tive essa mesma alucinação duas vezes, e pensava: pronto, agora tem que ir naquele ambiente, comer aquilo, depois tem que pôr aquela roupa…)

Tábata

A irmã da Tatiana, que foi minha namorada em 1995, ficou comovida comigo e a partir daí começou a se interessar por mim, de sentimento mesmo. Ela morava em outra chácara (e não a casa da época que namorei sua irmã). Havia um gramado imenso e seu pai vinha visitá-la de vez em quando, mas ele não gostava de mim. Ela criava cavalos, e eu tinha uma garrafa de vinho embrulhada de presente para dar a ela, mas ficava esperando na casa e ela não aparecia, e eu tinha medo do pai dela me pegar sozinho na casa dele. Eram muito ricos, e a decoração da casa era linda.

Pantanal

Uma das piores alucinações. Eu estava sozinho no pantanal, numa casa de madeira erguida sobre pilares também de madeira (por causa das cheias), as chamadas palafitas. Eu sabia que no matagal em volta da casa havia índios querendo me matar com armas de fogo e armas indígenas, como a borduna. Eu ouvia chiados de comunicação via rádio deles com o pai da Tábata, que tinha sido o mandante do meu assassinato. Eu tinha sono e fome, não podia dormir e ouvia eles forçando as portas e janelas, temendo que a qualquer momento conseguiriam arrombá-las.

Mar aberto

Eu estava com umas pessoas mais velhas, que eu não conhecia, mas sabia que eram amigas. Estávamos num barco funcional, de alumínio, mas com um andar superior, de onde se pilotava. Só se falava em um peixe de ferrões que havia tanto em águas rasas como profundas, e que era muito perigoso.

Casa de saúde alternativa no Bairro Santa Rosa

Eu estava no terceiro piso de uma casa que eu sabia ficar no Santa Rosa, um bairro de classe alta em Cuiabá. Eu ficava dentro de uma pirâmide de metal cromado, no segundo piso, e de vez em quando vinha uma pessoa que colocava uns sons para eu ouvir, e via também umas fumacinhas. Ela não falava comigo, apesar de eu sempre perguntar o que estava acontecendo. Eu sabia que era um tratamento da corrente mística Nova Era, e eu não gostava daquilo. Ficava horas sozinho e sentia muito calor, porque o ambiente era todo fechado e batia um sol infernal na janela de vidro à minha frente.

Casa alternativa em São José dos Campos/SP

Era uma casa simples, num bairro pobre de São José dos Campos, onde funcionava um “hospital” precário. O dono daquilo era um lunático, daqueles crentes alienados, porém visto como um benfeitor que curava as pessoas com tratamentos sugeridos pelos céus e era parente distante da minha família, por parte de avô ou avó, não me lembro. Os fundos da casa davam para uma espécie de rio sujo ou esgoto, onde estavam atracados uns botes de madeira, de cor azul, embaixo de umas colunas de madeira que sustentavam um cômodo anexo da casa, onde ficavam os doentes. Esse anexo era um salão cheio de doentes, mal cheiroso e calorento.

As pessoas pediam remédios para dor e ele dava um copo d’água. Eu pedia desesperadamente para me tirarem daquele lugar porque eu não estava sendo tratado devidamente, e eles me colocavam perto de uma espécie de motor que aquecia um balde verde de plástico, até que aquele balde derretia e eu era obrigado a aspirar uma fumaça também verde, que desprendia daquele balde. Essa fumaça tinha um cheiro forte, que me dava dor de cabeça, mas na convicção daquele lunático aquilo “curava”.

Eu chorava porque pedia para falar com minha mãe, com qualquer pessoa da família, e eles diziam que eu já já os veria, mas os dias passavam e eu não conseguia falar com ninguém. Nunca me deram banho nos dias em que lá fiquei, e eu me sentia muito sujo, grudento de suor, uma agonia.

Distribuição de sopa

Na encosta de um morro, havia uma construção baixa, dividida em três cômodos apertados, e fixada no paredão, sobre o abismo. Nela viviam uns irmãos alienados, que me faziam abrir a Bíblia toda hora porque Deus ia falar comigo. Eu obedecia, e as mensagens eram só bronca, daí aqueles doidos se achavam no direito de gritar comigo. Não me lembro de uma mensagem sequer, e sabia que era um lugar perigoso (cheio de assaltantes), e que a construção ficava à beira do precipício para chegar até ela somente entrando numa espécie de helicóptero fixo na encosta, que subia por um trilho no paredão, era movido a galões de diesel e havia uma cota diária para se gastar.

Outro helicóptero era usado para, no final de ano, derramar uma sopa lá embaixo naquele precipício, onde famílias ficavam correndo para lá e para cá com bacias na mão e olhando para cima, recolhendo o que caía do alto. Todo mundo que ia àquela casa tinha que participar do despejo da sopa e ainda tomar um pouco daquilo, que tinha um sabor horrível. A pessoa que pilotava dizia que o Senhor havia deixado essa ordenança, como condição de nunca faltar alimento para eles.

O helicóptero tinha marchas, e para cada número no “câmbio” a pessoa que pilotava achava que tinha uma mensagem dos céus condenando-a, pois aqueles números tinham uma ligação com macumbaria.

Shopping e cinema de trenzinho. Loja de roupas. Sapatos de papel colorido

Eu passeava no Shopping em São Paulo com a Deborah (minha colega de faculdade) e seu marido. Entramos num trenzinho que passeava por todas as lojas e também no cinema, quando então parava para se assistir o filme, não na sala própria, mas em pleno corredor. Lembro que comprei na bomboniere um negócio muito doce, enjoativo.

Depois, eu precisava de roupas e sapatos para ir na casa do helicóptero, e comprei três ternos e três pares de sapato, coloridos, caríssimos, porque era usados uma só vez devido ao fato de serem feitos de um material que parecia papel polido. Lembro do vendedor dobrando os ternos numa agilidade incrível.

Favela

Eu me lembro de ter ficado numa casa de favela, mas os barracos não eram amontoados um em cima do outro, e sim bastante espaçados entre si. A casa não era muito pequena, não tinha divisórias dentro e era pintada de branco. Havia uma mulher e algumas crianças (três ou quatro), e a mulher disse que iria me mostrar uma coisa antiga: era uma espécie de mala desmontável, que escondia um “carro” rústico, que parecia um carrinho de kart com um pequeno motor e tanque de combustível, mas era bastante potente. Ela abriu a mala e o montou no chão: era de ferro, muito fácil e rápido de ser montado, só cabia uma pessoa e tinha uma autonomia de combustível suficiente para correr da polícia, uma vez só. Segundo ela, tinha sido comprado clandestinamente, nos tempos da ditadura.

Colégio

Eu estudava em um colégio público, bastante simples, mas com muitos alunos, todos adolescentes na faixa dos 16 ou 17 anos. Lembro-me que eu era mais velho, não conhecia ninguém e ficava ou nas escadas durante o intervalo, ou observando da sacada do andar de cima o movimento no pátio, à hora da saída.

O tatame

Era um lugar militar, que tinha um grande tatame armado no ginásio da UFMT. Os alunos eram sérios, estavam rigorosamente alinhados quando cheguei. Não havia barulho enquanto se movimentavam, nem havia um mestre ou instrutor, e vestiam quimonos de um tecido grosso, meio marrom, da mesma cor do tatame. Meu tio Elyas apareceu e falou que era melhor a gente ir embora, não sei porquê.

Espera do lado de fora do hospital

Eu ficava numa maca, ao lado de uma parede, do lado de fora do hospital (não sei qual, mas eu sabia que estava em São Paulo, e à noite). Parecia ser uma parte dos fundos do hospital, porque chegavam e saíam ambulâncias o tempo todo, e não havia nenhum teto para me proteger da chuva fina que caía, o que me deixava preocupado, já que estava doente.

Eu perguntava dos meus pais todas as vezes que passava alguém da limpeza (usavam macacões azul-marinho) e eles diziam que o hospital estava fechado porque um povo da Assembleia de Deus tinha conseguido na Prefeitura que todo o trânsito em volta do hospital fosse fechado durante uns três dias, para eles fazerem uma corrente humana e orarem por mim.

À minha esquerda, mais ao fundo da entrada das ambulâncias, havia um telhado rudimentar de Eternit, e nele ficava pendurada uma lâmpada comum, de luminosidade fraca, que eu torcia para não se apagar, porque senão eu morreria, porque esse fiapo de luz significava meu fiapo de vida.


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